Pão & Poesia na Terra do Sempre


A ESPERANÇA BATE

(para Bárbara e Catarina)

 

Bate a esperança

a esperança bate

crio este refrão:

a esperança bate

 

busco a rima inútil

a pancada do coração

a esperança bate

e eu escuto

 

vou além do fútil

corro o horizonte

que não vai além

de livros e papéis espalhados

 

teus olhos surgem/ fogem de mim

flores que eu queria em nenhum jarro

cato-os, migalhas sobre a mesa

coloco-os no papel

a luz acesa

enxergo tua boca

agora de frente

beijo a parede

 

tudo está fechado

portas e janelas

tenho as chaves

mas estou preso

 

a esperança bate

vou atender:

era engano;

volto a ler

os anos

 

as imagens voltam como ondas

furiosas atrás de mim

perguntando-me de mim

rindo de mim

eu não digo nada

a esperança bate

 

tem dias em que quero franzir a testa

por isso não penso

nem vou ver o sol

cubro o espelho e deito-me

 

o vento anuncia teu perfume

abro a porta sorrateiramente

tu entras vestida de ilusão

ou sou eu que me iludo

dá no mesmo

 

a noite paira, pairo sobre ela

sentado, remexendo papéis

minha vida é feita de papéis

 

a sorte um dia disse que vinha

todos esperaram na cidade

a esperança bate

 

minh’alma de sonhar-te anda perdida

e a esperança bate

florbelamente em meu peito

 

ser herói seria bom

ter tantas vidas

revistas, fitas coloridas

álbum de figuras

 

hoje perdi as andorinhas

mas a esperança bate

amanhã chego cedo no portão

espero que uma delas pouse no muro

e me leve para ti.

 

(Do livro Os gestos do amor, 2004)



Escrito por Gildemar Pontes às 11h02
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A COISA DA PARTE

 

A alma do porco

É gorda

A lama do corpo

É parda

A mola do torto

É lerda

A mala do morto

É tarda

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 00h49
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SOLEDADE

 

estou a um passo de mim mesmo

e a dois passos de ninguém:

estou só.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 03h00
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POLPA DE AMOR

 

sentir a maciez

dos lagos e comer o bago

do amor de vez

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 02h59
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SONADA DO AMOR

só o amor nos redime do caos

francisco carvalho

 

 

só o amor

inversão do caos

nos redime do espelho do caos

só o amor nos salva

do catecismo de apolo

só o amor, ventura dos mares,

sabe o caminho do cais

só o amor

sabe germinar

o ventre da aurora

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 23h30
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MITOLOGIAS

 

Como dizia Homero:

É melhor voltar para Ítaca

Como dizia Platão:

A poesia pode ser perigosa

Como dizia Aristóteles:

Pra que filosofar se já tem poesia

Como dizia Dante:

Não pensei que aqui fosse esse inferno

Como dizia Camões:

Viram Dom Sebastião por aí?

 

Minha mãe é quem estava certa:

Meu filho, esse negócio dá dinheiro?

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 11h22
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POEMA VENCEDOR do

I CONCURSO NACIONAL DE POESIA AUDIFAX DE AMORIM, 2005,

promovido pela Prefeitura de Colatina - ES

 

 

A ARANHA E O POETA

 

A aranha tece a teia

Eu o poema

Há milênios fazendo-a perfeita

Eu aprendendo

Todos os pequenos bichos se

enredam no poema-ceia

Só rato, barata, cupim, traça(m) minha teia

A aranha mata a fome na rede

Meu poema tem a fome fiada nos milênios

Diferenças à parte,

a aranha não suporta minha indisciplina

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 18h38
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MINHAS MÃOS

 

Leva as minhas mãos

e escreve um poema de amor

diz que não há vida

sem o afago dessas mãos

diz que teu corpo sente falta

teus seios precisam de calor

teu ventre de aconchego

e tuas mãos de parceiras

diz que elas são tua segurança

e por elas agarrará o teu amor.

 

Carlos Gildemar Pontes.


 



Escrito por Gildemar Pontes às 18h25
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NAQUELA QUE PASSA

 

Perdi meus olhos naquela que passa

o verbo é presente mas ela se vai

não sei se era deusa ou vagabunda

não importa sua natureza

meiga ou selvagem

ela me deixou os cabelos longos

açoitando meu rosto

e o andar balançando minha cabeça

não sei se ainda verei aquela que passa

se um dia terei de volta meu olhar

tornei-me refém daquela que passa

meus olhos sem dono ficaram com ela

estarei feliz no andar que me levou?

não sei onde nem se miragem

sei que ancorei na imagem daquela que passa

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 18h47
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MINHAS MÃOS

 

Leva as minhas mãos

e escreve um poema de amor

diz que não há vida

sem o afago dessas mãos

diz que teu corpo sente falta

teus seios precisam de calor

teu ventre de aconchego

e tuas mãos de parceiras

diz que elas são tua segurança

e por elas agarrarás o teu amor.

  Carlos Gildemar Pontes.


 



Escrito por Gildemar Pontes às 19h15
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DE VEZ EM QUANDO

 

 

de vez em quando

lampejos

mordes, mordo (lábios)

que (beijas) beijo

 

de vez em quando

deitamos de lado

olhares de ternura

corpos magnetizados

que se atam em línguas

suores e salivas

 

de vez em quando

orgasmos interrompem nosso amor.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 21h27
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SERTÃO DOS BICHOS

 

Arde a terra sob meus pés

Anteu sou eu e os meus calos

de léguas e sol

arde em mim uma lua

que acalma meus olhos

e os bichos que sonham

a chuva amarela do milharal em flor

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 21h08
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Quando menos esperei, hoje, na varanda do apartamento, apareceu um beija-flor maluco, querendo beber o néctar de uma lâmpada do pisca-pisca da árvore de Natal.
Provou uma, provou outra e se foi com o bico seco.
Daí eu fiz um poeminha de Natal.
Beijos a todos os amigos.
Gildemar Pontes


FELIZ NATAL DE UM BEIJA-FLOR

O beija-flor errou a flor
e acendeu em meus olhos a esperança
ao bicar a lâmpada da árvore de Natal.

Carlos Gildemar Pontes

Jacir Walter

Foto: Jacir Walter



Escrito por Gildemar Pontes às 08h57
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SARTRE, PAS DESCARTES

 

ils pensent que je suis fou

peut-être un jour je serai un peu

ils voulaient ma raison

mais ma raison n’existe pas

 

je ne suis qu’un point

perdu a l’infinit

 

Carlos Gildemar Pontes 



Escrito por Gildemar Pontes às 20h29
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CANÇÃO DE NINAR PARA CATARINA

 

Dorme, dorme Catarina

que agora vou dizer

uma história pequenina

parecida com você

 

uma vez, há muito tempo,

o anjo bom me falou

que você, minha menina

ia ser o meu amor

 

passou hora, passou tempo

até que o dia raiou

você veio muito linda

e a alegria começou

 

Catarina tão quietinha

Sonha com Jesus pastor

Seu olhar, luz que indica

O caminho semeador

 

Carlos Gildemar Pontes

(Do livro Quando o amor acontece..., 2006)

 



Escrito por Gildemar Pontes às 14h48
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