Pão & Poesia na Terra do Sempre


LA ISLA DO POETA

 

La isla de mi sueño

se llama Cuba

Cuba de mi amigo Félix Contreras

o poeta que engraxou os papéis

e escreveu sua fome nos sapatos de Batista

o Poeta que nasció aos 18 años con la Revolución

eu te saúdo, Poeta!

eu e minhas trezentas e trinta lombrigas

com minhas chagas de Poeta triste

con mis ojos que navegaram todas as pátrias

te saúdo com todas as minhas feridas

que construíram tantas obras em vão

a ti, poeta insano

"lo que costó este poema"

apenas umas poucas palavras

guarda-as para ti

leva-as para a Isla

e manda-me notícias de Fidel

dos canaviais e da Sierra Maestra.

Um havana, não dispenso

manda-me dois por carta

para eu fumar a minha revolução.

 

Carlos Gildemar Pontes

Do livro: Metafísica das partes (1991)

 



Escrito por Gildemar Pontes às 09h25
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    MIRAGEM

 

Toda miragem é imagem,

vertigem, sonho, projeção,

só não é modelagem.

Na realidade tudo é criação.

 

Do olhar nasce o abraço

ato contínuo para o beijo,

miragem para o desejo –

que o corpo reclama –

do amor.

 

O amor é uma miragem

que se constrói.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 13h00
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SHOPPING PINDORAMA

 

Estalos de vozes tupinambás

Caramuru, caramuru cará

 

Iracema, Martim, Moacir

Macunaíma, Peri, Ceci

Brincando de roda na lua cheia

 

Espelhos, cruzes, rezas

Por ouro, prata, pau brasil

 

Exmo. Ministro das relações antropofágicas

Traga-me um bom cérebro potiguar

Para comer com vinho do Porto

 

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 21h15
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CANÇÃO DO CAOS


E salvem a poesia dos leitores que a abandonaram

salvem os poetas dos leitores que se abandonaram

salvem-nos, salvem-se.

Que não fique pedra sobre pedra!

Poema sobre poema

nenhum horizonte para contemplar.


Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 20h42
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O tempo é o inimigo da pressa

Vivem brigando pela chegada da hora

Um quer rapidez, outro demora

Por isso, nos apressamos para chegar

E nos demoramos para entender

Queremos a casa pronta, o prato na mesa,

O sorriso no rosto e a felicidade no coração.

A pressa, como dizem, é inimiga:

da situação, da perfeição e do coração.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 20h26
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AMOR, VERBO DE SE FAZER

 

Então o verbo se fez Nadja e veio como nada

trazida pelo vento, como uma pena perdida,

voando sem saber voar.

Trouxe-lhe o vento,

movida pelo acaso de um pensamento.

E veio numa tarde como outras tardes vêm

e não trazem nada.

Mas essa trouxe Nadja.

 

Carlos Gildemar Pontes

 



Escrito por Gildemar Pontes às 23h25
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Escrito por Gildemar Pontes às 22h19
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FELIZ NATAL DE UM BEIJA-FLOR

Ontem, na varanda do apartamento,

apareceu um beija-flor maluco,

querendo beber o néctar

de uma lâmpada do pisca-pisca da árvore de Natal.

Provou uma, provou outra e se foi

com o bico seco.

O beija-flor errou a flor

mas acendeu em meus olhos a luz da esperança

ao bicar a esperança de luz da árvore de Natal.

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 20h55
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ERRADICAR A POBREZA

Foi na passagem da minha infância para a adolescência que vi uma das cenas mais marcantes da minha vida. Chocou-me a idéia de presenciar um homem, aparentemente sadio, escavacando um tambor de lixo e comendo os restos de um pão com o bolor mofado de uma maionese. Ele tinha muita fome e essa fome era crônica, por onde ele andasse ela o acompanhava. Estava escrito nas suas roupas rotas, nos seus cabelos crespos e grossos de poeira, na sua pele que, mesmo sob o manto da sujeira, dava para perceber as marcas do sofrimento. A partir daquele dia, ficou difícil aceitar a pobreza. E muito mais, calar diante da soberba dos gananciosos e desonestos representantes do capitalismo mais selvagem que se exerce no Brasil.

Ingressei na Universidade e logo fui às portas do movimento estudantil. E percebi que havia outros indignados e havia muitos oportunistas. Colegas que se expressavam com uma retórica invejável e um poder de convencimento superior aos dos bispos de certas igrejas messiânicas. E eu ia sendo cobrado pela corrente leninista, que era contrária à corrente stalinista, que criticava a corrente trotskista e eram todas avacalhadas pela corrente anarquista. Todos conviviam com o desafio de adotar o socialismo, superá-lo pelo comunismo até chegar às coletividades anarquistas. Era final de ditadura e os aparelhos repressores estavam na iminência de perder o poder e permitir que aqueles barbudos que gritavam palavras de ordem não subissem mais para dormir no pau de arara. Veio a abertura política e junto Luis Carlos Prestes, Leonel Brizola, João Amazonas e tantos heróis de um mundo cada vez mais cheio de catadores de lixo e de burgueses aloprados em suas mansões.

Então, é preciso enfrentar o sistema e encarar o desafio que para muitos é insuperável, de erradicar a pobreza. Mas de qual pobreza me refiro? Sem querer tabelar os níveis de pobreza, já que abaixo da pobreza só existe a miséria e a barbárie, e logo acima dela um limite entre o quase pobre e o remediado, distingo apenas dois aspectos para reflexão: a pobreza material e a pobreza intelectual (uma quase sempre embutida na outra).

Os sonhos de juventude parecem muito distantes. Esperávamos que a revolução que não veio pudesse ser substituída pelos governos da abertura política, proporcionando a liberdade e o crescimento do povo brasileiro. Mas o sistema e seus tentáculos estavam presentes na vida das empresas, das escolas, das igrejas, dos clubes... A Guerra Fria incrementou ainda mais as diferenças ideológicas e a associação entre os ricos e os de direita contra os pobres e os de esquerda. Na medida em que as nações mais ricas dividiam a melhor fatia do bolo, os países periféricos disputavam as migalhas e ofereciam as sobras aos seus povos. No Brasil, até que nós pudéssemos colocar um representante identificado com as classes populares foram quatro tentativas com um trabalhador, metalúrgico, que se fez presidente. Vimos avanços e sentimos na mesa alguma diferença além do pão nosso de cada dia. Porém, os avanços nos setores industrial e comercial não se refletiram na educação e na saúde. A indústria do entretenimento atacou as classes C, D e E, que agora podiam usar parte das “bolsas engana pobres” para as noites de deleite kistch, onde o espetáculo podia ser usufruído na praça de graça.
A indústria cultural calou das rádios as vozes da alta MPB e deixou fluir a música mais água com açúcar, quando não de extremo mau gosto que até os ouvidos mais medianos se enfadam ao ouvir. A educação passou por uma metamorfose onde a matemática da estatística é mais importante que a formação conteudística. De Sarney a Lula, vimos as lições do Banco Mundial sendo cumpridas a risca. Elevam-se os índices dos alunos ingressos nas escolas, a aprovação a qualquer custo, os programas de aceleração, a pulverização de faculdades particulares subvencionadas pelo governo, espalhando-se feito praga em todos os lugares etc. Por outro lado, a precarização do trabalho e do salário, a ordinarização dos professores e a qualidade duvidosa na maioria desse crescimento acena para uma luz vermelha e deixa em estado de alerta os educadores em todas as esferas de atuação.

Qual professor está satisfeito com o salário e as condições de trabalho neste quadro atual? As drogas e a violência chegaram à escola e estão transformando jovens que poderiam ter um futuro promissor em marginais; professores que poderiam estar orgulhosos do seu papel de educadores lastimando a profissão e com medo de se tornarem vítimas dos seus próprios alunos. E quem são esses alunos que não passam no prova da cidadania? São os que materialmente sobrevivem em condições subumanas, sem emprego, sem moradia, muitas vezes em lares cuja relação mais conhecida é a violência. E têm na escola um refúgio para o estômago, na merenda escolar, e na quadra esportiva, onde o esporte ainda pode redimir os descaminhados.

Mas a cegueira dos políticos não é sintoma desse sistema excludente, é a causa maior. Junte-se cegueira com desonestidade e teremos a fórmula da incompetência e da corrupção. O que deve fazer o cidadão para erradicar a pobreza? Em primeiro lugar, erradicar os maus políticos; depois, erradicar os vícios que contaminam a cidadania, como a falta de ética e de princípios que se vê desde casa. Alie-se a isto uma boa dosagem de auto-estima e teremos um recomeço. Ainda acredito na escola e nos professores como intermediários nesse processo, ainda acredito em trabalho honesto e práticas coletivas de bem servir, ainda acredito no amanhã.

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 22h18
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VOTO NULO, DEIXEM-ME EM PAZ


Numa eleição há várias possibilidades de votar. Por exemplo: Nesta eleição havia muitos candidatos e cada um deles representa uma parcela do povo. Dilma, Serra, Marina, Eymael, Plínio etc. Esses candidatos representavam partidos e foram escolhidos em convenção, com exceção da Dilma que foi empurrada goela abaixo por um segmento do PT. Representando partes da sociedade brasileira, eles são legítimos e importantes para caracterizar a nossa sociedade de forma democrática e plural.

Passado o primeiro turno, em que grande parte dos eleitores escolheram os seus Plínios, suas Marinas, seus Eymaeis, seus brancos, seus NULOS, suas abstenções (sim, não ir votar também é um direito de dizer sim ou não), resta-nos, dois candidatos. Para os que não votaram nos dois, porque antes votaram em outros ou em ninguém ou se abstiveram, há o direito de escolha em aderir um dos dois ou manter a sua coerência votando simbolicamente nos candidatos do primeiro turno (o que significa anular o voto) ou simplesmente anular, votando em números que não existem, ou votar em branco ou se abster de votar. Isso é um direito e uma opção sem associação a qualquer consequência no resultado da eleição, sendo favorável a um ou a outro candidato. Afinal, esses eleitores que não votam em Dilma ou em Serra são pessoas responsáveis por seus atos, conscientes do seu voto e merecem o devido respeito por parte dos companheiros que votam em Dilma ou Serra.

Associar o voto NULO a um benefício a Serra é uma visão muito sectária, repressora e demonstra que, apesar do século XXI e das conquistas tecnocientíficas e sociais, continuamos "achando" que podemos ou temos a competência de qualificar as discussões e as decisões mais do que os outros, promovendo um patrulhamento ideológico pior do que os exercidos nos idos 70/ 80, quando nós, os "comedores de criancinhas", não podíamos conversar com os outros seres humanos que rezavam, "protegiam" a família ou simplesmente viviam jovemguardamente ao sabor de uma brasa, mora?

Meus amigos, e tenho muitos entre vocês, deixem os seus amigos, e sei que têm muitos entre nós, votarem NULO. A consequência da eleição pró Dilma ou pró Serra não vai abalar nossa fé, nossa ideologia ou nossa decisão de avançar na luta por justiça social, paz e amor aqui e/ ou na Cochinchina.
Para mim, Dilma/Serra são dois lados de uma mesma moeda, falsa, com interesses bons e ruins para a democracia, para a economia e para a convivência social mais plena. Se um é menos ruim do que o outro não quer dizer que eu tenha que me arruinar para votar no que me querem convencer ser menos ruim. Deixem-me votar NULO, deixem-me acreditar que posso aprender com as alternativas que posso ajudar a construir. Caso contrário, deixem-me em paz até o fim da eleição!

Lembrem-se eu concedo o direito de vocês votarem de acordo com as suas consciências, não mudem seus votos por minha causa. Eu aceito os diferentes pela capacidade que têm de mostrar outros caminhos.

Carlos Gildemar Pontes

 



Escrito por Gildemar Pontes às 23h27
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SÓ PODE SER BRINCADEIRA

 

Recebi a notícia como qualquer um que o conhecesse e jamais imaginasse acontecer tão cedo. Como aquela coisa indesejada, que a gente diz: cruz, credo, e faz o sinal da cruz. Paccelli teve um enfarto.

No dia seguinte, a pior notícia, a que seca a garganta, a que gela o espírito, adormece o coração e bambeia as pernas. Paccelli morreu. Que ingratidão para com os seus leitores do Gazeta. Porra, meu, car... E as aulas descoladas, sem aquele terno rançoso da academia, quem irá ministrar? Lembro dele, de quando o conheci, camisa sem mangas, sobre a velha moto que atravessou o sertão do Seridó, direto de Mossoró para Cajazeiras. Era parte da usa identidade, assim como foi um dia a jovem Samara, garupeira e amor de parte da sua vida. Da relação feliz enquanto durou, nasceu “Maya”, a que será amada por trazer no sangue uma paccellesca alegria em forma de rock, história e dois dedos de prosa.

Estamos de luto. O professor está em silêncio. A aula será de silêncio. O livro não dirá nada desta vez, nem os alunos pedirão explicação! Quem sabe as imagens dos santos nas paredes possam dizer mais que sabemos.

E a Universidade, que abriga a procura do saber, fará as homenagens ao mestre. E boquiabertos, enxugaremos as lágrimas e nos abraçaremos numa corrente de solidariedade por nós mesmos, que perdemos o amigo, o professor, o cronista, o roqueiro, o homem do Leblon e do povo do Açude Grande. Açude que ele dizia ter um povo feliz ao seu redor.

Talvez a sua mama tenha ido primeiro preparar o berço do filho amado. As mães nunca acham que os filhos crescem. Pois é “Mamaccelli” acalante o velho mano “papa”, beije sua fronte e caminhe um pouco com ele nos jardins do descanso feliz. Ficaremos com a dor e um pouco do nosso egoísmo abalado, porque não admitimos a morte, nem tampouco quando nos trai, levando alguém tão rapidamente.

São muitas as lembranças que queremos eternizar. A mais marcante, para mim, era da sua motoca parada em frente ao Pirulito, onde obrigatoriamente nós parávamos, quando descíamos da Universidade. E sabíamos que ali as estrelas iriam sorrir, embriagadas de poesia, piadas e música. Depois que nós brindávamos a Baco, selávamos com a alegria um pacto de nunca desistirmos da felicidade.

Vá em paz, velho papa, pela sombra, que é menos quente. Não ignore se ficarmos choramingando por algum tempo. Nós somos assim, feitos de saudades e lembranças. Foi nessa passagem aqui que deixaste um pouco de bondade e esperança de que o mundo pode ser melhor que essas notas tristes de um derradeiro rock and roll.

 



Escrito por Gildemar Pontes às 10h27
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EU ANJO TEU

 

Eu queria ser o teu anjo da guarda

Velar teu sono com a luz da estrela

Eu queria te guardar do mal

empunhando uma espada samurai em teu castelo

Eu um dia serei teu amigo

e tu dirás que sou necessário

Eu um dia te amarei perdidamente

e tu ficarás triste com a minha dor

Eu queria ser teu anjo

pra te dizer que anjo é pra sempre

anjo é pra se guardar.

 

Carlos Gildemar Pontes

 



Escrito por Gildemar Pontes às 23h22
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O SER(TÃO) DE CANUDOS

 

santontonho da conselho

acauã agoura não

 

não quebra espelho

canta espanta o canhão

 

buço, cumbuco, trabuco

tiro, retiro, suspiro

terra enterra sem terra

 

chão, sermão, sertão

imposto, rei morto, sem posto

Conselheiro e seu conselho

O Brasil não paga a dívida

Do ser(tão) de canudos

 

Carlos Gildemar Pontes

 



Escrito por Gildemar Pontes às 16h54
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O NOSSO TEMPO

Para Nadja Claudino

 

Quando o tempo passa

E a gente vai ficando velho

Também descobre que o amor

É uma necessidade de bichos e gentes

 

Quando o tempo ao teu lado passa

E a gente vai aprendendo a envelhecer junto

Descobre que o amor é alimento

Que vai saciar as horas

Que o nosso sonho e realidade se misturam

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 21h56
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METAFÍSICA DAS PARTES

parte considerável de nós

traz inúmera solidão desde menino

partes de nós ficaram pelo caminho

parte de nós uma nau errante

partes do coração distante

 

parte considerável de nós segue firme

partes se dissipam sem destino

parte das partes não voltará

partes da parte que fica seguirão

 

uma das partes nada sabe

outra parte nada teme

uma não tem leme

uma outra tem uma solução

outra uma imensidão

parte do coração errante

 

parte considerável de nós

se aquieta se aprofunda

partes se confundem

de todas as partes repartidas

nos perdemos

de todas as partes que ficaram

nós sonhamos

à parte olhamos parados

para partes que partem

deixando partes de nós

partidas

 

Carlos Gildemar Pontes

(Do Livro Metafísica das partes. Fortaleza: UFC, 1991)



Escrito por Gildemar Pontes às 00h39
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