Pão & Poesia na Terra do Sempre


 APARIÇÃO

 

Nadja me apareceu como um fantasma

E eu, que não cria em fantasmas

Não acreditei

ela se revelou como uma valsa

E rodopiou meus olhos ao sorrir

Pensei que estava preparado

Para os olhos brilhantes de Nadja

E eles me queimaram a solidão

Com o fogo do encantamento

Eu que tinha medo do encanto

Me encantei em Nadja

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 18h33
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      NOITES DE NATAL                                    

     

havia uma árvore de natal

como em todas as casas

com muitas bolas multicores

como em todas as árvores

e muitas luzes a piscar

como em todos os natais

 

havia uma lapinha

com bonecos de animais e gente

em torno do menino-deus

 

as mães orgulhosas

aprontavam seus filhos

carrinhos e bonecas na calçada

 

onde o colorido das bolas, das luzes

onde as crianças, o menino-deus

onde aquelas noites felizes

onde benditos lugares

se escondeu papai noel

 

por que meu olhar insiste

em recordar aquelas noites

piscando, piscando, piscando.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 00h08
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NAS RETINAS DE UM ANJO

 

Meninos são anjos sem asas

que aprenderam a voar

viajam com os olhos silenciosos

ocupando espaço e tempo infindos

meninos conhecem sonhos como ninguém

seus olhos, quase sempre infinitos,

já foram no esconderijo de Deus

brincaram enquanto o criador dormia

só eles têm a permissão de Deus

para entrar e sair do céu

meninos escorregam facilmente nas nuvens

se dependuram em arcos brilhantes

atrás de dragões e heróis de papelão

só meninos sabem ser anjos

 

Carlos Gildemar Pontes 

 



Escrito por Gildemar Pontes às 02h08
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CAJAZEIRAS, LUZ DO ALTO SERTÃO

(Homenagem de um cearense ao dia da Cidade, 22/ 08)

 

O sol banha minha terra de alegria

e exalta as cores da fertilidade depois da chuva

 

Cajazeiras criou filhos de luz para glorificar

o Alto Sertão

e fez nascer a poesia e a história

no calor e no afago do sertanejo

 

Se o sol nasce primeiro no litoral

aqui ele vem se deitar para acordar

as estrelas nas noites quentes de verão

 

Minha Cajazeiras é feita de luzeiros

de sol o ano inteiro

amorenando a pele dos seus filhos.

E de luas, nas noites em que o Aracati

vem acariciar o sonho das meninas,

na idade em que a flor é esperança

de beleza e suavidade eternas.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 07h51
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A ESPERANÇA BATE

(para Bárbara e Catarina)

 

Bate a esperança

a esperança bate

crio este refrão:

a esperança bate

 

busco a rima inútil

a pancada do coração

a esperança bate

e eu escuto

 

vou além do fútil

corro o horizonte

que não vai além

de livros e papéis espalhados

 

teus olhos surgem/ fogem de mim

flores que eu queria em nenhum jarro

cato-os, migalhas sobre a mesa

coloco-os no papel

a luz acesa

enxergo tua boca

agora de frente

beijo a parede

 

tudo está fechado

portas e janelas

tenho as chaves

mas estou preso

 

a esperança bate

vou atender:

era engano;

volto a ler

os anos

 

as imagens voltam como ondas

furiosas atrás de mim

perguntando-me de mim

rindo de mim

eu não digo nada

a esperança bate

 

tem dias em que quero franzir a testa

por isso não penso

nem vou ver o sol

cubro o espelho e deito-me

 

o vento anuncia teu perfume

abro a porta sorrateiramente

tu entras vestida de ilusão

ou sou eu que me iludo

dá no mesmo

 

a noite paira, pairo sobre ela

sentado, remexendo papéis

minha vida é feita de papéis

 

a sorte um dia disse que vinha

todos esperaram na cidade

a esperança bate

 

minh’alma de sonhar-te anda perdida

e a esperança bate

florbelamente em meu peito

 

ser herói seria bom

ter tantas vidas

revistas, fitas coloridas

álbum de figuras

 

hoje perdi as andorinhas

mas a esperança bate

amanhã chego cedo no portão

espero que uma delas pouse no muro

e me leve para ti.

 

(Do livro Os gestos do amor, 2004)



Escrito por Gildemar Pontes às 10h02
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A COISA DA PARTE

 

A alma do porco

É gorda

A lama do corpo

É parda

A mola do torto

É lerda

A mala do morto

É tarda

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 23h49
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SOLEDADE

 

estou a um passo de mim mesmo

e a dois passos de ninguém:

estou só.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 02h00
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POLPA DE AMOR

 

sentir a maciez

dos lagos e comer o bago

do amor de vez

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 01h59
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SONADA DO AMOR

só o amor nos redime do caos

francisco carvalho

 

 

só o amor

inversão do caos

nos redime do espelho do caos

só o amor nos salva

do catecismo de apolo

só o amor, ventura dos mares,

sabe o caminho do cais

só o amor

sabe germinar

o ventre da aurora

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 22h30
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MITOLOGIAS

 

Como dizia Homero:

É melhor voltar para Ítaca

Como dizia Platão:

A poesia pode ser perigosa

Como dizia Aristóteles:

Pra que filosofar se já tem poesia

Como dizia Dante:

Não pensei que aqui fosse esse inferno

Como dizia Camões:

Viram Dom Sebastião por aí?

 

Minha mãe é quem estava certa:

Meu filho, esse negócio dá dinheiro?

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 10h22
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POEMA VENCEDOR do

I CONCURSO NACIONAL DE POESIA AUDIFAX DE AMORIM, 2005,

promovido pela Prefeitura de Colatina - ES

 

 

A ARANHA E O POETA

 

A aranha tece a teia

Eu o poema

Há milênios fazendo-a perfeita

Eu aprendendo

Todos os pequenos bichos se

enredam no poema-ceia

Só rato, barata, cupim, traça(m) minha teia

A aranha mata a fome na rede

Meu poema tem a fome fiada nos milênios

Diferenças à parte,

a aranha não suporta minha indisciplina

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 17h38
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MINHAS MÃOS

 

Leva as minhas mãos

e escreve um poema de amor

diz que não há vida

sem o afago dessas mãos

diz que teu corpo sente falta

teus seios precisam de calor

teu ventre de aconchego

e tuas mãos de parceiras

diz que elas são tua segurança

e por elas agarrará o teu amor.

 

Carlos Gildemar Pontes.


 



Escrito por Gildemar Pontes às 17h25
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NAQUELA QUE PASSA

 

Perdi meus olhos naquela que passa

o verbo é presente mas ela se vai

não sei se era deusa ou vagabunda

não importa sua natureza

meiga ou selvagem

ela me deixou os cabelos longos

açoitando meu rosto

e o andar balançando minha cabeça

não sei se ainda verei aquela que passa

se um dia terei de volta meu olhar

tornei-me refém daquela que passa

meus olhos sem dono ficaram com ela

estarei feliz no andar que me levou?

não sei onde nem se miragem

sei que ancorei na imagem daquela que passa

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 17h47
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MINHAS MÃOS

 

Leva as minhas mãos

e escreve um poema de amor

diz que não há vida

sem o afago dessas mãos

diz que teu corpo sente falta

teus seios precisam de calor

teu ventre de aconchego

e tuas mãos de parceiras

diz que elas são tua segurança

e por elas agarrarás o teu amor.

  Carlos Gildemar Pontes.


 



Escrito por Gildemar Pontes às 18h15
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DE VEZ EM QUANDO

 

 

de vez em quando

lampejos

mordes, mordo (lábios)

que (beijas) beijo

 

de vez em quando

deitamos de lado

olhares de ternura

corpos magnetizados

que se atam em línguas

suores e salivas

 

de vez em quando

orgasmos interrompem nosso amor.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 20h27
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