Pão & Poesia na Terra do Sempre


PALIMPSESTEANDO

(Sete anos atrás do hipotexto)

Para Sônia van Dijck e Milton Marques Jr

 

Aos set’anos eu corria atrás de Rachel

Sete anos depois encontrei uma Maria

Mas menino ainda eu quase nada fazia

Pouco depois aprendi tudo num bordel.

 

Mas o tempo passou, Rachel, então mulher,

Mais linda que o sol a cada nascer do dia.

A moça pobre e maltratada, a tal Maria,

Encontrei comendo um pf sem colher,

 

na feira, onde trabalhava uma sua tia.

Ante esta confusão eu resolvi fazer

Um texto palimpsesto para poder dizer

 

em dois quartetos com rimas em adbc,

e nos tercetos só rimar o som de (ê),

pra ir embora conversar com a prima Sílvia.



Escrito por Gildemar Pontes às 01h09
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DA ARTE DE CADA UM

 

 

Um dia, um cego, que ouvia muito bem, conheceu um homem de boa visão, mas teimoso. O cego conhecia muito bem o canto dos pássaros, sabia distinguir o trinado de cada um. Diferenciava-lhes pelo ritmo, pela altura do som, pelo modo e pela harmonia que imprimiam à natureza.

Numa bela tarde, os dois foram ao bosque apreciar os pássaros, que eram muitos naquele dia. O teimoso, com pena do cego, disse:

- Ah! se você pudesse ver a beleza da plumagem desses passarinhos, amigo!

- Ah! meu caro amigo, – retrucou o cego – se você soubesse o que eles estão dizendo!!!

Carlo Durano Copyright © 2004



Escrito por Gildemar Pontes às 22h28
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O CAÇADOR DE ARCO-ÍRIS

 

De manhã eu calçava as botas e armava a espingarda. Saía com o bornéu cheio de munição e um apito de invocar nambu. Andava léguas e léguas fugindo do sol. Armava minha arapuca no pé da lagoa e subia na árvore pra ver se avistava a botija

Escrito por Gildemar Pontes às 22h27
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HÁ DIAS MAIS FELIZES, QUE BOM!

Levei um tempão para perceber que estava sozinho, anos até, remoendo, remexendo papéis, rescrevendo sonhos. Dias, tardes, noites não importavam, eu buscava algo que não existia ainda fora dos aeroplanos.

Pediram-me para eu divulgar o concurso para professor. Então, eu lembrei de ti. Mas por quê? Tu, tão longe do meu espaço e do meu tempo presente. Sim, porque eu estava sozinho e sem respostas.

Escrevi uma cartinha simples, mais um pretexto para saber de ti. E para meu espanto tu existias sólida e saudosa nos meus arquétipos. Tu me respondeste como que pedindo para eu te falar coisas para um coração enfermo. E eu estava só e enfermo do coração. Como poderia atender ao teu pedido?

Tu não vieste fazer o concurso e eu fiquei desolado como um lobo abandonado à sorte e aos uivos da solidão. Esse dia foi frio e eu olhei para um ponto fixo guardado há trinta anos, na minha memória infantil. Depois voltei para a realidade e vesti de volta minha armadura e pus novamente a minha máscara.

Tanto tempo construindo dias impossíveis. Luas em espelhos. Amontoando sonhos em álbuns de figuras. Para nada. Pastas e mais pastas de ilusão.

Confesso que senti uma dor forte no vazio do meu egoísmo de colecionador de sonhos.

Mas tu existias, que bom! Viva e sorridente em algum lugar dentro de mim.

Melhor de tudo, foi saber que há dias felizes, que tu podes sair de dentro de mim, que eu posso me olhar e me ver, porque tu estás em mim: linda e maravilhosa como no dia em que nos conhecemos.



Escrito por Gildemar Pontes às 22h23
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POR CAUSA DA LUA

O que seria da nossa angústia existencial, sem a leitura de O processo ou A metamorfose, de Kafka? O que seria da nossa dúvida, sem o Assim falou Zaratrusta, de Friedrich Nietzsche? O que seria da nossa filosofia, sem o Humanitismo, de Quincas Borba ou o Idealismo reformista do Major Policarpo Quaresma? E a nossa ressaca, sem os olhos de Capitu? E o índio Galdino, sem a dor de Iracema? E o medo, sem as veredas do Grande Sertão? E a mentira, a preguiça, sem as bravatas de Macunaíma? E a nossa pequenez, sem "O anão", de Moreira Campos? Seríamos apenas tolos num mundo determinado com princípio, meio e fim, sem mentiras nem verdades, burocrático e penal ou celestial. A história seria aceita sem qualquer tese benjaminiana. Uma história para a glória dos governos e patrões. E nós, pequenas criaturas de Deus, não precisaríamos mais de Deus para embalar a nossa fatalidade. Porque tudo estaria escrito no livro da vida. Tudo seria assim, chato, se o espanto não tivesse tomado conta daquele hominídeo que olhou para a lua cheia, saindo detrás dos ciprestes, e gritou para sua tribo Aaaaaaaaaahhhh. Foi ali que toda verdade se desmanchou. Aquele atrevido rompeu com a lógica da natureza e se admirou. Seu espanto foi estendido para outras coisas e passou para outros homens. Outros, como ele, foram desenvolvendo uma necessidade de gritar e de se espantar mais vezes. Foi aí que nasceu a poesia. Mas era preciso restaurar a ordem e a hierarquia do universo no grito. Aí surgiram os governantes e suas leis, na base da força, é bem verdade. Quando menos se esperava, o homem estava falando e inventando mais espanto e mais lei para coibir o espanto. Nesse momento surgiu a filosofia. A ciência veio logo depois para restaurar o caos. E Deus, que não tem culpa de nada, fica espiando, um risinho no canto da boca, admirado. Tudo isso por causa de um grito de alguém que viu a lua nascer detrás dos ciprestes.

Copyright © 2004 by waldemar ebner filho



Escrito por Gildemar Pontes às 23h54
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O OLHAR REAGENTE

 

teu olhar contém uma substância

que em neve enevoa meu ser

são partículas de sonhos

colocadas in vitro

fermentadas para o amanhã

 

espero e reajo à solidão

espero e permeio a ilusão

 

minha alma química

amolece a mímica

dos meus atos sólidos

 

serão estes meus passos

para o caminho dos ensaios

nestes tubos de paixão

Ecstasy by Elian



Escrito por Gildemar Pontes às 21h05
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