Pão & Poesia na Terra do Sempre


AS SETE FACES DE UM PALHAÇO

a Arrelia, in memoriam

   Foto Jornal O POVO, de Fortaleza

 

segunda-feira

amanheci na lona

o picadeiro era a corda bamba

pintei o rosto com cimento e cal

e as unhas com barro

não sei se alguém rirá de mim

ou da minha boca

com dentes invisíveis

 

terça-feira

amanheci com fome

o picadeiro era o cais do porto

pintei o rosto com sangue de navalha

minha peruca era um saco de 40 quilos

 

quarta-feira

meus olhos estão rotos

são trezentas máscaras colocadas

trezentas solidões no sorriso

trezentas cáries para cada dente invisível

 

(o poema continua embaixo)



Escrito por Gildemar Pontes às 17h49
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quinta-feira

meus pés estão calejados de dias

as pernas envelhecidas de noites

o estômago carcomido de tardes vazias

minhas rugas abrigando o tempo

 

sexta-feira

hoje vai ter espetáculo?

não sei não, senhor

não sei, não

não, sei

não

 

sábado

o palco agora é o palco

a tinta agora é a tinta

a máscara agora é a cara

o palhaço agora sou eu

                  

domingo

hoje tem espetáculo?

tem, sim senhor

...

e o palhaço que é?

...

segundaterçaquartaquintasextasábadodomingo...

 

Carlos Gildemar Pontes

 

Continuam abertas as inscrições para O II Concurso Acauã de Conto e Poesia



Escrito por Gildemar Pontes às 17h40
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Hoje, lendo o Diário do Nordeste, me deparei com um belo artigo do Roberto DaMatta  - No meio dos livros.

Gostaria de republicar o último parágrafo para que possamos refletir sobre a nossa experiência de leitores.

 

“Na Bienal, meu coração se abriu para essa memória dos livros. Foi quando me dei conta dos livros como amigos, confessores, colegas, adversários, mestres e provas para o que de melhor tem a humanidade: a sua capacidade de resistir, com histórias, ao nada e a desesperança. Coisas com início, meio e fim, único meio de contrabalançar a terrível indiferença de mundo sem fundo ou fim. Deus existe, Ele está nos livros.” (Roberto DaMatta, Diário do Nordeste, 25/05/2005)

 

NicolasPoussin l'été ou ruth et booz

 

 

NOVES FORA A VIDA

 

Nasci aos três de junho, na rua 1º de maio. Aprendi aos três anos o nome dos lugares: Alacaju, Vitólia, Culitiba. Meu pai se orgulhava, minha mãe - minha vida. Aos dez tive hepatite. Aos treze o mundo se abriu. Milena roubou-me um beijo, Sandra, o sexo me abriu. Entrei para o Colégio Militar, cerquei-me de patridiotas e disciplina. Aos quinze tinha barba, sabia francês e odiava a polícia. Fátima pousou em mim o F comme femme, me apaixonei perdidamente. Aos dezoito, Francisca era a Mona Lisa, cigana linda, pelos pátios da Faculdade e do meu coração sem medida. Rosangela nos 27 me levou ao altar: amamos, de um amor mais lindo; separamos, de uma dor partindo. Fui para outra cidade, sem hino, mas canto-lhe parabéns no 22 de agosto. Andréa fez jorrar duas fontes: os olhos castanhos de Catarina anunciam o crepúsculo, os olhos verdes de Bárbara, as manhãs de frente para o mar. Érica veio no reboliço e me prendeu entre medos. Ainda está atrás do meu coração. Na soma de tudo, muita coisa vezes nada. Nada às vezes que é,  contudo, tudo é soma. 2 + 2 são feijão com a arroz. Noves fora a vida.

 Carlos Gildemar Pontes


 



Escrito por Gildemar Pontes às 07h51
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cascavel

 

o pêndulo

a flâmula

a corda

a horda

a borda

a corja

 

as sombras

as sobras

as lontras

as lombras

as pessoas

as peçonhas

 

asco

casco

carrasco

vaca

vela

leve

cava

para lá

para cas

cavel

 

Carlos Gildemar Pontes

 

 

 

 



Escrito por Gildemar Pontes às 09h39
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Greek Patio Print by Georges Meis

 

MATURIDADE

 

perdi o sono

e acordei o espelho

 

de quem são essas rugas

esta calva

esses cabelos brancos?

 

que contas são essas

sobre a mesa

esse resto de vinho amargo

esses olhos vermelhos

e essa dor no peito?

 

onde está a chave dessa porta de concreto?

 

Carlos Gildemar Pontes

 



Escrito por Gildemar Pontes às 23h20
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