SOB LENÇÓIS
Tu passaste as mãos no meu olhar
E levaste minhas retinas tatuadas no teu
Fiquei cego por alguns instantes
Depois recobrei-me e avistei os teus cabelos
Pendurados no teu corpo
Ouvi distante teu sorriso gotejando nas paredes do meu quarto
Ouvi mais perto tua voz soprar-me alguma coisa
Entendia o que falavas porque queria conhecer tua alma
Recolhi tuas palavras e teu sorriso
E fundei a tua história
Narrei teus feitos como os de uma deusa
Que enfrentava o deserto e a solidão que eu habitava
Mas tu insistias em sorrir cada vez mais perto
Cada vez mais perto da minha esperança
Quando devolveste meu olhar
Eu então quis roubar o teu
Para ser teu guia nas estradas desconhecidas
Numa tarde cinzenta te encontrei numa esquina
Segurando uma canção
Pedi a todos que ouvissem
Mas era uma canção só para mim
Que passou a me acompanhar como minha própria sombra
Descobrimos que o tempo tempera os sonhos
E nós passamos a olhar para frente do horizonte
Guardamos na memória as palavras que dissemos
E os sorrisos que cruzamos
Bebemos uísque para afastar as carruagens
repletas de fantasmas
vimos a lua despontar por detrás dos travesseiros
tentamos guardá-la sob os lençóis
para usá-la nas noites de escuridão.
Carlos Gildemar Pontes (do livro Os gestos do amor, 2004)