Pão & Poesia na Terra do Sempre


O POETA É O POEMA

 

O poeta

retira seu retrato das águas de um rio

banha-se por um momento

vai com as águas para não mais voltar

 

o poeta

esconde-se dentro de cada um

ultrapassa todos os labirintos

só para chegar ao deserto

não importa a sede

sim a liberdade

o deserto também é uma sede que liberta

o poeta

navega resoluto a distância

não há tempo

não há riscos

não há nada

só a travessia inadiável

um ultrapassar-se

para chegar onde não há ninguém

as portas estarão fechadas

 

o poeta

parte partindo e se repartindo

até atingir a realidade em que se encontra

depois se perde

que nem Deus achará

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 19h38
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SOB LENÇÓIS

 

Tu passaste as mãos no meu olhar

E levaste minhas retinas tatuadas no teu

Fiquei cego por alguns instantes

Depois recobrei-me e avistei os teus cabelos

Pendurados no teu corpo

Ouvi distante teu sorriso gotejando nas paredes do meu quarto

Ouvi mais perto tua voz soprar-me alguma coisa

Entendia o que falavas porque queria conhecer tua alma

Recolhi tuas palavras e teu sorriso

E fundei a tua história

Narrei teus feitos como os de uma deusa

Que enfrentava o deserto e a solidão que eu habitava

Mas tu insistias em sorrir cada vez mais perto

Cada vez mais perto da minha esperança

Quando devolveste meu olhar

Eu então quis roubar o teu

Para ser teu guia nas estradas desconhecidas

Numa tarde cinzenta te encontrei numa esquina

Segurando uma canção

Pedi a todos que ouvissem

Mas era uma canção só para mim

Que passou a me acompanhar como minha própria sombra

Descobrimos que o tempo tempera os sonhos

E nós passamos a olhar para frente do horizonte

Guardamos na memória as palavras que dissemos

E os sorrisos que cruzamos

Bebemos uísque para afastar as carruagens

repletas de fantasmas

vimos a lua despontar por detrás dos travesseiros

tentamos guardá-la sob os lençóis

para usá-la nas noites de escuridão.

 

Carlos Gildemar Pontes (do livro Os gestos do amor, 2004)

 



Escrito por Gildemar Pontes às 23h15
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  PENSAR

 

 

 

há pessoas que sonham que pensam:

são tolas.

há pessoas que pensam e nem sabem:

são absortas.

há pessoas que, quando pensam

que estão pensando nem sequer imaginam

que não deveriam pensar,

incomodam.

incomodam como o pensamento

dos tolos e dos absortos.

quem quiser pensar que pensa,

que pense,

pode até brincar de pensar

eu nem ligo

não me preocupo

para que pensar nisto?

ora bolas!

para que pensar???



Escrito por Gildemar Pontes às 07h26
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LONGARINAS

 

As longarinas

Longas lindas

Longe ainda

Estão de desabar

 

As longarinas

Longas lindas

Longe contemplam

As vagas nuas

Em raios de luar

 

As longarinas

Doiradas da tarde

Dançam nuas

Longas lindas

Não tombam mais

 

As longarinas

Longas esperanças

No corpo das crianças

Tão lindas na tarde

 

As longarinas

Não tombam mais

Por isso volto

Para o meu cais.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 08h20
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