PEQUENOS TIGRES FAMINTOS
Ver nos teus olhos a maciez calma dos lagos
no teu corpo o barro do meu corpo
e no teu caminho as flores de agosto
as flores de agosto quase nasceram na primavera
mas são flores de inverno
quando os rios ficam cheios de meninos
com seus saltos mirabolantes
preciso preencher a solidão das tuas tardes
quando ficas imóvel
e uma flauta anuncia a canção de um niño triste
o condor passa sobre os Andes
e sobre o sangue latinoamericano
vê, os heróis não morreram como quer a história
não reclamam flores de primavera
eles estão em cada camponês
e em cada mendigo destas cidades sem Deus
preciso ouvir Orpheu
inaugurando o madrigal das manhãs
o Atlântico e o Pacífico cantam
nas costas do meu povo
afagando a pele dos náufragos
eu também sou náufrago em teus olhos
no teu corpo que reincendeia
as cinzas do meu amor
teus olhos me encandeiam de tal forma
que renasço antes de me tocarem
lindos, taciturnos, (im)puros, e ingênuos
como pequenos tigres famintos
Carlos Gildemar Pontes