Pão & Poesia na Terra do Sempre


RODAS DO TEMPO

 

as vezes somos surpreendidos

pelo pássaro da manhã

às vezes pela primeira estrela da noite

 

as vezes pelo nosso olhar

fantasiado de bobagens

 

mas que bom a surpresa do pássaro

da primeira estrela

do olhar fantasiado

 

às vezes o bom mesmo

é deixar o tempo passar

e a gente ir se surpreendendo pelo caminho

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 18h23
[   ] [ envie esta mensagem ]




MINHA FABULOSA IGNORÂNCIA

 

Admiro minha fabulosa ignorância. Astor Piazzolla chegou de manhã numa sinfonia triste, nas mãos do regente alemão Pinchas Steinberg, no Programa Quem tem medo dos Clássicos?, apresentado pelo escritor Arthur da Távola, (que é, sem saber, meu professor de música clássica), na TV Senado.

A primeira vez que ouvi Piazzolla, ainda era menino, num dia de domingo, pelas mãos de um professor de música. Não sabia quem executava aquela bela triste canção, tocada por aquele instrumento que minha mãe quase um dia aprendeu. Poderia ser minha mãe tocando ali, caso não fôssemos pobres de quase Jó e tivéssemos que optar pelo feijão e o arroz e não pela música. Eu, então fiel escudeiro de minha mãe, desencantei do piano por falta de dinheiro para freqüentar a escola. Mas toco com os ouvidos e às vezes com as mãos, tamborilando em mesas ou na direção do carro, quando o sinal fecha e eu tenho de ser acordado por uma orquestra de buzinas estúpidas.

Naquele dia, descobri minha predileção pelos clássicos. Na minha infância havia um programa, Concertos para Juventude, que eu assistia admirado. Não sei porque eu assistia, meus amigos viam Durango Kid, Perdidos no Espaço e Bonanza, que eu também via com a mesma euforia dos outros. Mas a música clássica me retirava para outro mundo que eu não sabia qual era. Não quero tentar explicar porque me transporto ao ouvir música clássica. Se for herança de outra existência, que bom, sei que não fui completamente tosco. Se for de agora, coisas que não se explicam, muito bom, também. Pois falemos de Astor Piazzolla, hoje, igualmente domingo, quando voltei alguns anos de minha vida e lembrei meu batismo na arte de refinar o espírito. Ouvi atentamente Adios Nonino, tango com um solo magistral de bandoneon. A música atravessou a sala e me tirou da cadeira. Valsei, ou melhor, tanguei,  pelos espaços da minha igualmente fabulosa imaginação. Me transportei para os salões do Louvre, a Plaza Del Mayo, o Lago Titicaca, sobre o véu das águas, fiquei sentado de cara pro Vesúvio esperando a fumacinha avisar a hora de correr. Acho que fui para os lugares que gostaria de ficar ouvindo música e me lembrando da humanidade que poderia existir, caso os clássicos pudessem freqüentar as salas de aula e as praças de todos os países. Imaginem nos morros do Rio ou nas favelas do Recife, crianças alimentadas, sorrindo com dentes de verdade e corações depurando mentes sonhadoras. Desta vez não vou me perder em elucubrações fora do tango. Sou por demais dispersivo quando viajo sem música.

Adios Nonino trata-se de um tango em homenagem ao pai de Astor. As recordações que o tango invocam são representadas por diálogos refinados entre violinos e o bandoneon. Como não é de nossa cultura ouvir tangos, não podemos sentir as nuances de cada evolução rítmica ao longo da peça musical. Arthur da Távola chama atenção para a sensibilidade de Piazzolla na composição do tango. Seus arranjos fizeram fama entre as orquestras, com suas expressões sendo verdadeiramente sentidas por quem as executa. É que o astro argentino “sente o tango como muito pouca gente, como poucos ele sabe o que é o tango”. Eu, por minha natureza de aprendiz, como poucos deixo minha solidão ser invadida pela música. E como diz Távola, “Música é vida interior. Quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 11h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




A IRONIA GENIAL DE RAVEL

 

“Há alguma coisa de ironia nesse Bolero”. Foi o que disse Arthur da Távola domingo, 7, na TV Senado, referindo-se ao Bolero de Ravel, para mim e para o Arthur, uma obra prima da humanidade. Na análise que fez do Bolero, o escritor carioca iniciou explicando a gradativa inserção dos instrumentos, desde o tarol até o gran finale, com toda a orquestra alternando solo e acompanhamento.

Onde fica a ironia, então? Segundo Arthur, na percepção jazzística que tinha Ravel ao introduzir instrumentos de sopro não tradicionais à orquestra, como forma de estranhar a norma. Por exemplo, o saxofone não era um instrumento usual em composições clássicas até a década de 30 do século 20. O som do saxofone, abraçado pelo jazz, entrava num terreno nada afeito à invenção e ao improviso. Talvez a própria figura de Ravel explique essa mudança de atitude no processo criativo da música clássica. Um sujeito franzino de uma moral ilibada e um humor incomum. Humor e moral são distintos em sua realização. A moral atende a uma concepção ideológica de base filosófica. O humor é decorrente de um estado de espírito que pouco se explica por conceitos. Bem, mais isso é teorética. Prefiro falar do Bolero.

Diz-se que um camarada que queria incomodar seu vizinho passava o dia ouvindo repetidamente e a todo volume o Bolero. Se não conseguia irritar, pelo menos educava um pouco seu desafeto.

O fato é que Ravel me conquistou com uma música triste, fúnebre, que eu acho linda e que me proporciona um prazer estético incomensurável, a Pavane pour une infante défunte. Coisas da arte. O belo se esconde em lugares só perceptíveis ao coração. Não vou dizer da maior e mais profundamente dolorosa emoção que já senti, embora paradoxalmente e estranhamente grandiosa para o meu espírito, a morte da minha mãe. É uma dor particular que não estendo a outras pessoas.

Pois voltando a Ravel, encontro em suas composições um abrigo para meu deslocado estado de alma. Já ouvi de muitos “amigos” a seguinte frase desabonadora: ele é poeta. E eu, orgulhosamente desabonado, sorria com o coração cheio de poesia. Em diversas situações fui comparado ao destemperado, ao despropositado, ao inconveniente, ao abusado, ao estranho, ao idiota, por pensar e externar uma visão poética de mundo. E não creiam que foi Platão quem me falou isso. Os interlocutores dessas insidiosas afirmações não eram filósofos e nem fizeram escolas, eram colegas de ofício e de profissão. Então acredito que tem alguma coisa de errada comigo. Não com o mundo. O mundo é regido pela lógica da globalização da economia, sustentada pelo poderio militar e econômico dos Estados Unidos, e pela onda volátil do capital especulativo. As nações, como a nossa, seguem cartilhas e fazem festa com mensalões e presidentes personalistas que se cercam de intelectuais subnutridos intelectualmente e de aspones prontos a defender a pátria dos grupos que se locupletam com a feliz miséria do povão. Isso é ironia.

Lá vou eu agora tentar recuperar o fio da meada do que me propus. Ravel foi tão irônico que compôs uma obra baseada no bolero espanhol, em realização ondular e repetitiva, que se inicia lento e vai explodindo em sonoridade em torno de um mesmo movimento. Assim também foi com Pavane... que me tornou refém da beleza triste de uma obra que só os gênios sabem ironicamente construir.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 18h58
[   ] [ envie esta mensagem ]




DE VOLTA PARA SER DE NOVO

 

Quantas vezes acordei com a sensação de que tu estavas no banheiro e irias sair linda para mais um beijo. Mas tu não saías e eu percebia que tudo fora um sonho. Então eu pedia aos anjos que me devolvessem ao exato instante em que acordei, para eu retomar teus beijos e dizer-te no sonho que o amor é assim, só é bom quando é sonhado.

Algumas vezes, eu percebia teu semblante meio triste e o teu olhar grávido numa paisagem. Na verdade eu era doido para penetrar ali, no teu devaneio, e passear contigo de mãos dadas como imaginei um dia.

No verão os pássaros ficam mais bonitos. Têm sede. Cantam mais. Nunca quis criá-los. Não saberia explicar-lhes o que é liberdade.

Houve tempo em que nós dormíamos coladinhos, um respirando com o pulmão do outro, e, não satisfeitos, acordávamos para fazer amor, e nos amávamos a madrugada inteira, e acordávamos o sol com os nossos olhos vermelhos de paixão e felicidade.

O golinha era miudinho, mas cantava uma belezura. Sobre a galha do cajueiro ele anunciava a alegria das manhãs. Depois vinha o canário, a graúna e a sabiá. Um concerto para o meu coração se acalmar.

E aquela carta que tu sempre falas, eu a escrevi numa tarde de sol.

Linda, não?

Quando a maré baixar, nós vamos pescar lá no meio daquelas marinas, a gente dizia todos os meses.

É um sonho bom. Gostoso, meu amor, de se sonhar!

 

Carlos Gildemar Pontes

 

Mark Hemmings 



Escrito por Gildemar Pontes às 13h25
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, FORTALEZA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, French, Livros, Esportes, Karate
Histórico
  Ver mensagens anteriores

Outros sites
  Revista Agulha
  Leontino Filho
  Arte Jovem
  Meu outro Blog
  Chico Buarque
  Sônia van Dijck
  SS Tânia Mulher
  Fortaleza Esporte Clube
  Adriana Zapparoli
  Touché
  Mario Cezar
  Linaldo Guedes
  Valéria Poética
  Louise Tommasi
  Loba
  Maísa Pupila
  Maria Borges
  Dora Vilvela
  Queima Bucha
  Carolina de Loar
  Usina das Palavras
  Ivinho
  Márcia Maia
  Garganta da Serpente
  Cadeira de Balanço
  Dira
  Rafaella Souza
  Rafaela Dantas
  Maria Odila
  Alcilene
  Zany
  Assis Dantas
  Alex