Pão & Poesia na Terra do Sempre


ABRINCADABRA

 

 

A tarde escorria no céu feito uma criança num parque de diversões. Eu esperava a hora de dormir para abrir a janela do quarto. Na hora em que todos estivessem recolhidos, roncando, receberia as dez almas coloridas e distribuiria os meus brinquedos.

Todos vieram esta noite: a bruxinha da Catarina, o palhacinho do Dioguinho, o beija-flor do Marcus e o velho Aldenor, acompanhado do Esquerda. A brincadeira era uma sinfonia. As dez almas sorriam e trocavam de canto com a bruxinha, o beija-flor pousava em nossa cabeça como se enxergasse a nossa auréola de flor, o palhacinho batia toc-toc em seu tamborzinho amarelo. E o velho Aldenor rangia seu único dente na pata do meu cavalinho. O Esquerda, bêbado, adormeceu.

A noite descia alta quando o silêncio lá de fora denunciava uns passos leves na escada. Eram como os de minha mãe. Todos correram para se esconder, menos eu, que me joguei debaixo do lençol na expectativa de ver o trinco se abrir. Quando mamãe entrou, o quarto era aquela bagunça. A janela batendo, tudo espalhado pelo chão, e eu, todo molhado, debaixo de uma goteira, que cuspia do alto da cumeeira, o xixi do querubim.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 06h53
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INDEPENDÊNCIA OU NADA

 

Sou um sujeito bem brasileiro. Desses que vibrou e chorou com as vitórias e depois com a morte do Airton Senna, que se indignou com a venda/ doação da Vale do Rio Doce e do Sistema de Telecomunicação do país, que torce, discute, xinga o juiz, defendendo o seu clube de futebol, que foi para as ruas pedir Diretas Já!, que fica besta olhando o mar... Acho que, ao meu modo, sou um patriota.

Bem, ser patriota na época da ditadura, por exemplo, tinha um significado completamente diferente. O 7 de setembro era imposto para todos. Havia convocação no rádio e na televisão para que assistíssemos à Parada militar. Os nossos heróis oficiais não convenciam muito, mas nós feriávamos alegres. Vestíamos a roupa de domingo e, segurando a mão do pai, íamos acenar a Parada com a bandeirinha do Brasil. Veio a liberdade, após a anistia, e nós não nos obrigamos mais a ver soldados marcharem. O tempo foi passando e nós assistimos o país entrar no processo de globalização pela porta dos fundos. É, somos obedientes e ficamos na cozinha da civilização, espiando de longe a festa do Primeiro Mundo. Cumprimos todas as ordens. Seguimos a cartilha do ABC Internacional que tem outras letras, FMI, BID, USA, ALCA, ONU, OEA etc., êpa, parece que essas siglas estão interligadas!!! E o nosso gerente-presidente de plantão também é uma sigla. FHC, LULA. Isso está me parecendo um óbvio u-lulante.

Nosso presidente-mágico (que nos surpreende a todo momento) pediu a benção ao Bush, levantou o astral do decadente Tony Blair e estuda todas as noites para o provão do FMI. Quando viaja para o estrangeiro, costuma levar uma trupe que se regala no banquete de uma ilusão.

Eu, como ilegítimo devedor das dívidas externa e interna, estou preocupado com a possibilidade de perder o cheque especial e o bom senso. Vejamos o por quê? Os usineiros que deviam dinheiro aos bancos deram calote e foram premiados com o perdão da dívida; os banqueiros fraudulentos que desviaram dinheiro foram socorridos. Os sonegadores de impostos, os cartelistas dos remédios, das distribuidoras de combustível estão sorrindo para o povo desdentado. A quadrilha que quebrou a previdência e lesou a pátria corrompida está se abanado com dólares nos paraísos fiscais. E, pasmem, os defensores da ética hoje são porcos fuçando na gamela cheia do poder. Meu país tão grande e tão menino, esse Brasilzão que não enjoa de ser rico e de ter tanto pobre se tornando miserável.

D. Pedro gritou errado. “Independência ou morte” é uma frase que não se aplica ao brasileiro, que não é capaz de morrer pela pátria. Resultado: como ninguém queria morrer, a pátria deixou o fauno decadente da história voltar para Portugal. Melhor seria se o príncipe tivesse dito: Independência ou nada. Afinal, nos sobrou muita dependência e não temos nada mesmo. Preciso de uma saída para minha crise existencial. Vou ao Banco do Brasil fazer um empréstimo para cuidar da minha aparência de servidor público. Vou ao Shopping ver as novidades em celular e computador, para me sentir um pouco menos alienado. Preciso de terapia urgente. Quero me consultar com um anão do orçamento, um fraudador do INSS, um torturador em busca de dólares, um desses deputados amestrados do ex-FHC ou desses do Lula, que regateiam mensalão afrontando a pobreza que assola. Quem sabe eles me convencem que a honestidade não vale a pena, que a ética é só um devaneio da filosofia, que esse país é um circo e eu um grande otário disfarçado de intelectual!

A propósito, no próximo dia 7 de setembro, vou me fantasiar de D. Pedro I. Vou subir num jegue e, com a minha espada de madeira, gritar para o mundo: Independência ou nada!

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 20h21
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PO®ÉTICA

 

atolo na filosofia

me entalo em sociologia

escapo em poesia

 

me perco em matemáticas

me engano nas gramáticas

afago a poesia

 

evaporo na burocracia

apavoro com a plutocracia

me uno à poesia

 

Hitler, Stalin, Mussolini,

Bush, Nero, Pinochet pisaram no pão,

poesia nossa de cada dia, que comemos

 

Homero, Dante, Neruda,

Rilke, Cervantes, Baudelaire alcançaram

a crueldade do perdão

 

Carlos Gildemar Pontes

 

Photo Tobias Zeising



Escrito por Gildemar Pontes às 19h24
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