Pão & Poesia na Terra do Sempre


O BRASIL, A MISÉRIA E O MEU VOTO

 

Atesto, para dos devidos fins, que o Governo Brasileiro é incapaz de me proteger. Eu, cidadão brasileiro, contribuinte de impostos na fonte e nos produtos que consumo, pago aluguel, água, luz, telefone e ainda assisto aos programas eleitorais gratuitos de todos os partidos, como forma de me tornar cada vez mais ciente de meus deveres e meus direitos (sic) ou como forma de tortura pela fantasia.

De repente, sou assaltado perto da minha casa. Por piedade não fiquei nu e não levei uns pescoções nem fui para o além mais cedo. Levaram alguns trocados, uma roupa já usada e um par de tênis (meio sujos e não tão agradáveis de cheirar). Entrei para a estatística da violência. Sou um número que o governo tentará omitir do Banco Mundial. Quanto aos assaltantes, dois rapazes de uns 20 e poucos anos, provavelmente não estudam, não sei se têm famílias, não posso inferir subjetividades porque só lembro mesmo era da pistola que eles portavam. Era uma 45, dessas que são exclusivas das forças armadas, parecia nova e tremia muito na mão de um deles, talvez início de carreira, o que me fez pensar que eles eram apenas pobres coitados enjeitados pela “sorte”. E sorte para os enjeitados se resume a comida, saúde, escola e trabalho. Lembrei, então, que como ele há milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria. Lembrei que sou pai e que, caso estivesse na miséria, faria qualquer coisa, digo qualquer coisa mesmo, para não ver uma filha minha passar fome. Falo isso com a serenidade de quem não está na miséria e de quem tem um profundo amor por elas. Se fosse um desgarrado da sorte, certamente não estaria com esse discurso ameno que estou usando, iria partir para a violência e perderia completamente a noção de ética e de moral, pela noção de barriga cheia e de pequenas miudezas que surtam dos miseráveis.

Quando vejo nos programas policiais de tv a polícia invadindo favelas e sendo rechaçada pelos bandidos, fico apavorado com a falta de controle do estado em prover a segurança do cidadão. Por vezes vi a violência policial e a violência de bandidos, por diversas vezes parei em estradas federais para não atropelar crianças, jovens e velhos que tapavam buracos com pás e até usando as mãos, a trocar a dignidade por trocados para calar-lhes a fome. Nos sinais das grandes metrópoles, as crianças se misturam aos adultos em busca de moedas para sustarem a sua fome e de suas famílias; cada dia vejo nas praias das grandes cidades mais meninas trocarem bonecas por programas com gringos que são atraídos pelas propagandas que os governos estaduais vendem de seus estados como paraísos tropicais do lado de baixo do Equador, sem pecados. Enquanto isso, em Brasília, deputados entram na operação abafa para livrar os sanguinários corruptos do mensalão da degola da cassação. E o novo presidente da Câmara, aliado do Planalto, aposentou o delinqüente Roberto Jefferson.

Então, vão desviar a atenção do povo para o plebiscito sobre o desarmamento, como forma de satanizar o cidadão de bem que tem o direito legítimo de defesa e de possuir uma arma. Iludem com as estatísticas de que as armas que estão nas mãos dos bandidos são provenientes do cidadão comum e escamoteiam os dados sobre o contrabando de armas que aumentou pelas fronteiras do Paraguai e da Amazônia. São centenas de pistas de pousos que recebem drogas e armas, além da entrada pelos rios da fronteira. E não há homens nem material para fazer frente a essa invasão. O silêncio das autoridades se dá também quando se fala em proteger a fauna, a flora e as reservas de água potável brasileiras que se situam num território cada vez mais desconhecido dos brasileiros. Missionários americanos e de outros países se enraízam nas comunidades indígenas, sob pretexto de estudar os costumes para ajudar os índios. O que fazem é descaracterizar suas culturas e pilham as nossas riquezas naturais patenteando nossa identidade, porque não temos atitudes nacionalistas refratárias a esse tipo de invasão.

Temos inúmeros açudes e lagoas nos estados afetados pela seca que poderiam minimizar os efeitos da estiagem no Nordeste inteiro, caso fossem feitos investimentos para integração de bacias. A transposição do Rio São Francisco poderia ser feita sem a megalomania do projeto inicial e sem o risco de matar bispos de fome. Ocorre que não há investimentos estaduais e federal, e uns ficam jogando a culpa nos outros pela falta de atitudes.

Querem mais problemas? Não! Vou tentar costurar um final que apresente a minha opção no plebiscito do dia 23. Pode ser devaneio de alguém que sonha em viver num mundo brasileiro melhor. Eu até votaria sim, desde que todos os traficantes e outros bandidos se convertessem ao budismo, todos os policiais (bem pagos) fizessem cursos de sachês, floricultura, corte e costura, ballet e andassem com rosas na cartucheira; votaria sim, se abrissem as portas dos presídios e os apenados tivessem trabalho e dignidade e os corruptos ficassem no lugar deles, na prisão, e a educação fosse o maior bem.

Como estamos prestes a uma invasão pela posse da água; como estamos vendo a infância e a adolescência serem destruídas pelo abandono do estado, sendo suscetíveis às drogas, à prostituição e ao banditismo, VOTO NÃO. Depois que o Brasil se livrar da miséria, posso repensar o meu voto. Quero ter o direito de defender a minha integridade, a da minha família e a do meu país.

 

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 21h39
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ME DIGA

 

Me diga qual é o som

Que o teu ouvido capta

Quando o pássaro morre

De tristeza sem cantar?

 

Me diga se esse som

Ultrapassa as fronteiras

Escorre nas corredeiras

Dos rios da ilusão?

 

Se não sabes não Gioconda

Não se faça Mona Lisa

Com aquele sorriso cínico

Muito menos de Cleópatra

 

E por falar em Madona

Como é que vai Guinevere

Prima da Helena de Tróia

E irmã da Betsabá?

 

Quem faz confusão é a mãe

do soldado amarelo

espancador de cadela

e do macaco Simão

 

pra que rimar lesco-lesco

bora-bora ou ula-ula

clavinete com falsete

cura sara e saracura?

 

Melhor é abrir as asas

Correr os campos em brasa

E assoprar o vento de volta

Pra casa do furacão.

 

Carlos Gildemar Pontes

 

Keiichi Nishimura



Escrito por Gildemar Pontes às 21h15
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MENINOS SÃO MENINOS

 

a tarde tange a mosca das feridas

meninos bicam sonhos nas estacas

será que o corvo negro da maldade

vai beliscar com força esta cidade?

 

o padre veste o sino da batina

meus olhos se dispersam na neblina

meninos descem pontes de tristezas

será que eu sei de cor esta saudade?

 

a tarde estanca a dor de quem tem fome

será que o estivador nasceu sem nome?

meninos jogam pragas nas escolas

quem sabe vai brilhar felicidade

 

o padre apodrece a sua sina

cavalgo o dorso azul dessa menina

quem tem sonho que durma, eu fico aceso

fumando o dia, o sol e a claridade

 

meninos adormecem nas latrinas

sonhando o doce amargo das cantinas

meninos são pipocas de metralha

meninos fazem fogo na cidade

meninos são meninos são meninos

 

Carlos Gildemar Pontes

 

Carmem A Busko



Escrito por Gildemar Pontes às 09h03
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