O OLHAR ESSENCIAL
Parte considerável de mim
quer ser a parte que perdi
parte de mim uma estrada
invisível por onde ando
parte considerável de mim
procura incessante outro caminho
parte quer achar o ninho
resoluta parte do destino
e quer apagar a solidão
parte considerável de mim
quer chorar e sorri
parte de mim uma parte que não fui
parte espera há longos anos
há tantos anos quantos sonhos
parte de tantas parte um fio
que me une e me impulsiona
a esta parte indissolúvel
indescritível, indestrutível
de todas as partes que se foram
partes ficaram e se aglutinam
se amontoam e se refazem
nesta parte a que eu mesmo
não sabia pertencer
nesta metamorfose
sabe-se lá que parte acordará amanhã
e vai querer repartir meu destino
espero pacientemente em parte
sem repartir as horas
sem apagar os sonhos
sem despedir ilusões
sem cometer o afobo de partir
sem a parte que acordará em mim
Carlos Gildemar Pontes
Escrito por Gildemar Pontes às 10h50
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NO REINO DA MEDIOCRIDADE
Houve um tempo, quando os animais falavam, que tudo começava com “Era uma vez”. Havia reis, rainhas, cavaleiros andantes disputando a honra de princesas. Havia castelos, tavernas, florestas com duendes e animais que se metamorfoseavam em gente e gente que virava bicho. Era o tempo das lendas e das fábulas. Criações do povo que foram passando de geração em geração e foram recolhidas por escritores, que popularizaram essas histórias com o nome de Literatura Infantil.
Bem, mas onde fica o reino da mediocridade em tudo isso? Aqui mesmo, nesta pátria imensa, de contraste entre riqueza e pobreza, que comporta tanto autoritarismo e tanto desgoverno, tanto sábio e tanto ignorante, tanto cientista craque e tanto ministro perna de pau. Esse lugar fica mais perto do que a gente imagina. Um lugar onde um candidato a rei, subserviente ao desgoverno-mor, promove austeridade a uma maioria ignorante e perna de pau.
Vixe Maria, eu tô na terra que esqueceu o bê-a-bá! Mas, como pode um país viver de absolulismo em discursos que não convencem mais ao mais incauto dos estudantes do curso primário de uma escola pública qualquer? Eu disse primário? Como estou atrasado! Aliás, pude perceber o meu atraso quarta-feira última (dia iluminado pelo nascimento de Bárbara), no jantar de posse da nova diretoria do Rotary Clube de Cajazeiras. Sentei-me ao lado de um professor de português do antigo primário, lá atrás, nos idos das décadas de 60 e 70. Ele conversava sobre o ensino de antanho. E eu ouvia meio admirado e meio maravilhado aquele professor ostentando cultura e saber de causar inveja a tanto hermeneuta empapuçado de discursos verborrágicos. Lembrai-me que sou um professor universitário, que tenho alunos já professores do “primário”, que nesse reinado de incompetência e mediocridade ingressam na Universidade sem as noções de latim, francês, inglês, filosofia, sociologia, história, português... O quê?? É sim, meu caro leitor, português. E do jeito que este reino vai, na base do faz de conta, nós estaremos (en)fadados a rebolar a bunda ao som do axé e do forrótrônico, choramingando as letras dos chitãozinhos da vida e colecionando diplomas de mentirinha.
Desculpe-nos, meu caro professor primário, refiro-me a nós porque somos uma sociedade medíocre e abrigamos um magote de incompetentes. Do lado de cá, da vicejante terra de Padre Rolim, temos uma Escola Técnica Federal (hoje, CEFET), um Campus avançado da UFCG e inúmeras escolas, mas a maioria dos nossos professores não conhece Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Nélson Werneck Sodré; apesar de viver no sertão, nunca leu Os sertões; e o que dirão de Drummond, Bandeira, Graciliano, Rosa, Rachel, Alencar, Machado? Seria um esforço sobre-humano. Não vou falar em Camões, Pessoa, Camus, Sartre, Genet, Proust, Balzac, Tólstoi, Dostoiewsky, Faulkner, Mansfield, Poe, Kafka, Neruda, Borges, Gabriel, Llosa..., nem pensar, são nomes difíceis até de pronunciar (a rima interna foi involuntária); sem falar nos pensadores, de Sócrates a Morin, que dão um nó danado na tripa cerebral.
Tá vendo, meu caro professor primário, estes autores que descortinaram seu mundo estão fadados a contar suas histórias somente para aposentados como o Senhor e para uns poucos atrevidos que ousam desafiar a estupidez.
Um dia, quem sabe, uma fadinha, cansada da nossa incompetência, resolva acertar-nos com sua varinha de condão, para que possamos acender a nossa escuridão (lá vem de novo a rima interna). Ou quem sabe alguma “autoridade” in-vestida de uma farda, na base do cacetete, nos faça ver estrelas, para que possamos acordar deste sono pesado e inculto e resolvamos ocupar o nosso espaço, para sermos respeitados por esses reizinhos de papelão.
Era uma vez uma escola repleta de professores bem pagos, que liam e...não se envergonhavam disto.
(Esta crônica foi escrita há mais ou menos seis anos e meio e adaptada aos dias atuais).
Carlos Gildemar Pontes
Escrito por Gildemar Pontes às 21h21
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