Pão & Poesia na Terra do Sempre


 

SÓ PODE SER BRINCADEIRA

 

Recebi a notícia como qualquer um que o conhecesse e jamais imaginasse acontecer tão cedo. Como aquela coisa indesejada, que a gente diz: cruz, credo, e faz o sinal da cruz. Paccelli teve um enfarto.

No dia seguinte, a pior notícia, a que seca a garganta, a que gela o espírito, adormece o coração e bambeia as pernas. Paccelli morreu. Que ingratidão para com os seus leitores do Gazeta. Porra, meu, car... E as aulas descoladas, sem aquele terno rançoso da academia, quem irá ministrar? Lembro dele, de quando o conheci, camisa sem mangas, sobre a velha moto que atravessou o sertão do Seridó, direto de Mossoró para Cajazeiras. Era parte da usa identidade, assim como foi um dia a jovem Samara, garupeira e amor de parte da sua vida. Da relação feliz enquanto durou, nasceu “Maya”, a que será amada por trazer no sangue uma paccellesca alegria em forma de rock, história e dois dedos de prosa.

Estamos de luto. O professor está em silêncio. A aula será de silêncio. O livro não dirá nada desta vez, nem os alunos pedirão explicação! Quem sabe as imagens dos santos nas paredes possam dizer mais que sabemos.

E a Universidade, que abriga a procura do saber, fará as homenagens ao mestre. E boquiabertos, enxugaremos as lágrimas e nos abraçaremos numa corrente de solidariedade por nós mesmos, que perdemos o amigo, o professor, o cronista, o roqueiro, o homem do Leblon e do povo do Açude Grande. Açude que ele dizia ter um povo feliz ao seu redor.

Talvez a sua mama tenha ido primeiro preparar o berço do filho amado. As mães nunca acham que os filhos crescem. Pois é “Mamaccelli” acalante o velho mano “papa”, beije sua fronte e caminhe um pouco com ele nos jardins do descanso feliz. Ficaremos com a dor e um pouco do nosso egoísmo abalado, porque não admitimos a morte, nem tampouco quando nos trai, levando alguém tão rapidamente.

São muitas as lembranças que queremos eternizar. A mais marcante, para mim, era da sua motoca parada em frente ao Pirulito, onde obrigatoriamente nós parávamos, quando descíamos da Universidade. E sabíamos que ali as estrelas iriam sorrir, embriagadas de poesia, piadas e música. Depois que nós brindávamos a Baco, selávamos com a alegria um pacto de nunca desistirmos da felicidade.

Vá em paz, velho papa, pela sombra, que é menos quente. Não ignore se ficarmos choramingando por algum tempo. Nós somos assim, feitos de saudades e lembranças. Foi nessa passagem aqui que deixaste um pouco de bondade e esperança de que o mundo pode ser melhor que essas notas tristes de um derradeiro rock and roll.

 



Escrito por Gildemar Pontes às 10h27
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