Pão & Poesia na Terra do Sempre


ERRADICAR A POBREZA

Foi na passagem da minha infância para a adolescência que vi uma das cenas mais marcantes da minha vida. Chocou-me a idéia de presenciar um homem, aparentemente sadio, escavacando um tambor de lixo e comendo os restos de um pão com o bolor mofado de uma maionese. Ele tinha muita fome e essa fome era crônica, por onde ele andasse ela o acompanhava. Estava escrito nas suas roupas rotas, nos seus cabelos crespos e grossos de poeira, na sua pele que, mesmo sob o manto da sujeira, dava para perceber as marcas do sofrimento. A partir daquele dia, ficou difícil aceitar a pobreza. E muito mais, calar diante da soberba dos gananciosos e desonestos representantes do capitalismo mais selvagem que se exerce no Brasil.

Ingressei na Universidade e logo fui às portas do movimento estudantil. E percebi que havia outros indignados e havia muitos oportunistas. Colegas que se expressavam com uma retórica invejável e um poder de convencimento superior aos dos bispos de certas igrejas messiânicas. E eu ia sendo cobrado pela corrente leninista, que era contrária à corrente stalinista, que criticava a corrente trotskista e eram todas avacalhadas pela corrente anarquista. Todos conviviam com o desafio de adotar o socialismo, superá-lo pelo comunismo até chegar às coletividades anarquistas. Era final de ditadura e os aparelhos repressores estavam na iminência de perder o poder e permitir que aqueles barbudos que gritavam palavras de ordem não subissem mais para dormir no pau de arara. Veio a abertura política e junto Luis Carlos Prestes, Leonel Brizola, João Amazonas e tantos heróis de um mundo cada vez mais cheio de catadores de lixo e de burgueses aloprados em suas mansões.

Então, é preciso enfrentar o sistema e encarar o desafio que para muitos é insuperável, de erradicar a pobreza. Mas de qual pobreza me refiro? Sem querer tabelar os níveis de pobreza, já que abaixo da pobreza só existe a miséria e a barbárie, e logo acima dela um limite entre o quase pobre e o remediado, distingo apenas dois aspectos para reflexão: a pobreza material e a pobreza intelectual (uma quase sempre embutida na outra).

Os sonhos de juventude parecem muito distantes. Esperávamos que a revolução que não veio pudesse ser substituída pelos governos da abertura política, proporcionando a liberdade e o crescimento do povo brasileiro. Mas o sistema e seus tentáculos estavam presentes na vida das empresas, das escolas, das igrejas, dos clubes... A Guerra Fria incrementou ainda mais as diferenças ideológicas e a associação entre os ricos e os de direita contra os pobres e os de esquerda. Na medida em que as nações mais ricas dividiam a melhor fatia do bolo, os países periféricos disputavam as migalhas e ofereciam as sobras aos seus povos. No Brasil, até que nós pudéssemos colocar um representante identificado com as classes populares foram quatro tentativas com um trabalhador, metalúrgico, que se fez presidente. Vimos avanços e sentimos na mesa alguma diferença além do pão nosso de cada dia. Porém, os avanços nos setores industrial e comercial não se refletiram na educação e na saúde. A indústria do entretenimento atacou as classes C, D e E, que agora podiam usar parte das “bolsas engana pobres” para as noites de deleite kistch, onde o espetáculo podia ser usufruído na praça de graça.
A indústria cultural calou das rádios as vozes da alta MPB e deixou fluir a música mais água com açúcar, quando não de extremo mau gosto que até os ouvidos mais medianos se enfadam ao ouvir. A educação passou por uma metamorfose onde a matemática da estatística é mais importante que a formação conteudística. De Sarney a Lula, vimos as lições do Banco Mundial sendo cumpridas a risca. Elevam-se os índices dos alunos ingressos nas escolas, a aprovação a qualquer custo, os programas de aceleração, a pulverização de faculdades particulares subvencionadas pelo governo, espalhando-se feito praga em todos os lugares etc. Por outro lado, a precarização do trabalho e do salário, a ordinarização dos professores e a qualidade duvidosa na maioria desse crescimento acena para uma luz vermelha e deixa em estado de alerta os educadores em todas as esferas de atuação.

Qual professor está satisfeito com o salário e as condições de trabalho neste quadro atual? As drogas e a violência chegaram à escola e estão transformando jovens que poderiam ter um futuro promissor em marginais; professores que poderiam estar orgulhosos do seu papel de educadores lastimando a profissão e com medo de se tornarem vítimas dos seus próprios alunos. E quem são esses alunos que não passam no prova da cidadania? São os que materialmente sobrevivem em condições subumanas, sem emprego, sem moradia, muitas vezes em lares cuja relação mais conhecida é a violência. E têm na escola um refúgio para o estômago, na merenda escolar, e na quadra esportiva, onde o esporte ainda pode redimir os descaminhados.

Mas a cegueira dos políticos não é sintoma desse sistema excludente, é a causa maior. Junte-se cegueira com desonestidade e teremos a fórmula da incompetência e da corrupção. O que deve fazer o cidadão para erradicar a pobreza? Em primeiro lugar, erradicar os maus políticos; depois, erradicar os vícios que contaminam a cidadania, como a falta de ética e de princípios que se vê desde casa. Alie-se a isto uma boa dosagem de auto-estima e teremos um recomeço. Ainda acredito na escola e nos professores como intermediários nesse processo, ainda acredito em trabalho honesto e práticas coletivas de bem servir, ainda acredito no amanhã.

Carlos Gildemar Pontes



Escrito por Gildemar Pontes às 22h18
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